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Desvios de normalidade da cavidade bucal

PROF. DR. ARTUR CERRI
Especialista, Mestre e Doutor em Semiologia pela USP
Prof. Titular da Disciplina de Semiologia da UNISA, UCCB e UNG
Prof. Adjunto de Semiologia da UMC

PROF. CARLOS EDUARDO XAVIER DOS SANTOS RIBEIRO DA SILVA
Mestrando em Semiologia pela UCCB
Prof. Assistente da Disciplina de Semiologia da UCCB, UNISA e UNG

UNITERMOS
Alterações não patológicas - Variações anatômicas

SINOPSE
Os autores relatam algumas alterações bucais, que em função de seu aspecto clinico podem ser confundidas com patologias, apesar de serem apenas variações da normalidade.

SUMMARY
The authors describe some bucal alterations whose clinical aspects can be confounded with diseases, although be only variations of normality.

KEYWORDS
Alterations with no diseases - Anatomical variations

INTRODUÇÃO

A Odontologia nos dias atuais, está enquadrada na área de prevenção e diagnóstico das doenças da mucosa bucal, bem como dos ossos do complexo maxilo-mandibular, não cuidando somente das doenças que acometem os dentes (2,9,11).

Essa evolução no conceito da odontologia como ciência é evidenciada pela preocupação maior do cirurgião-dentista com a saúde bucal de seus pacientes, contribuindo para que eles atinjam perfeito estado de bem estar somato-psíquico-social (2,9,11).

O cirurgião-dentista moderno, como verdadeiro profissional da saúde, tem o dever e mais do que isto, a obrigação de conhecer detalhadamente as estruturas anatômicas da cavidade bucal, objetivando reconhecer e diagnosticar as diversas patologias quer de caráter local ou sistêmico que comprometem essa cavidade (2,9,11).

A elaboração do processo de diagnóstico de uma anormalidade deve estar alicerçada no binômio sinais e sintomas, não bastando apenas identificar uma anormalidade. Nesse particular, tem se afirmado que o diagnóstico é a capacidade do clínico de detectar ou notar a presença de uma alteração. A afirmativa dificilmente pode ser considerada como conceito básico, posto que subentende, por exemplo, que o diagnóstico é simplesmente a detecção de um sinal clínico como uma nodosidade, uma úlcera ou uma bolha (2,4,6,7,9,11). Na realidade, até um leigo é capaz de perceber a existência de anormalidade em presença de uma pessoa com face deformada. Em outras palavras, a simples constatação de uma alteração não revela conhecimento ou capacidade de identificar o processo patológico que a causou.

Como já se disse, o diagnóstico de uma anormalidade só pode ser realizado no conhecimento da sintomatologia apresentada. Além disso, como finalidade última do diagnóstico é sugerir e fornecer base correta para o plano de tratamento mais adequado, na realidade, torna-se pré-requisito necessário á terapêutica.

Muitas alterações carecem de sinais e sintomas esclarecedores, induzindo a erros na elaboração do diagnóstico e dedução do prognóstico, comprometendo até mesmo profissionais experientes. Muitas alterações ou anormalidades bucais não se traduzem necessariamente por doença, tratando-se muitas vezes de "desvio de normalidade" sem apresentar alterações patológicas significativas.

Inúmeros métodos e procedimentos podem ser utilizados na confecção de um diagnóstico correto, baseado apenas na observação clínica, sem recorrer a qualquer outro dado ou informação, sendo denominado de "diagnóstico clínico ". Em essência, o diagnóstico clínico é a identificação de uma anormalidade baseada apenas na observação e avaliação da entidade mórbida, através dos exames subjetivos e objetivos (2,4,5,6,7,8,9.11,12).

Neste trabalho, trataremos primordialmente das alterações mais comuns da cavidade bucal, não apresentando obrigatoriamente caráter de doença, tratando-se tão somente de "desvio de normalidade". Essa condição, no entanto, não exime o profissional de efetuar um exame clínico detalhado e completo. Na maioria das vezes essas anormalidades são traduzidas pelo "diagnóstico clínico ", uma vez que os exames complementares são nesses casos, na maioria das vezes, inconclusivos, não orientando a natureza do processo.

 

LÍNGUA GEOGRÁFICA

Glossite migratória benigna, eritema benigno ou língua geográfica é uma alteração de etiologia desconhecida, embora acredita-se que possa estar relacionada ao stress ou distúrbios psicogênicos (1,3,5,6,7,8,10,12). Possui predileção por crianças e adultos jovens, sendo encontrada aproximadamente em 2% da população dos estados unidos, sendo ligeiramente mais frequente nas mulheres que nos homens (3).

Clinicamente apresente-se como múltiplas áreas planas avermelhadas com despapilação das papilas filiformes, formando figuras circinadas. São delimitadas por uma linha branca ou branca-amarelada de bordas bem definidas. Nas áreas de despapilação das papilas filiformes, permanecem como pequenas pápulas avermelhadas, as papilas fungiformes. Caracteristicamente ocorre uma repapilação das áreas despapiladas e uma despapilação de áreas anteriormente normais. Esse fenômeno de despapilação-repapilação dá um aspecto de "mapa" sendo por isso denominada de língua geográfica (3,5,6,7,8,9,11).

Usualmente a língua geográfica é uma condição assintomática. Em alguns casos, porém, os pacientes podem relatar irritação ou sensibilidade relacionados ao consumo de alimentos condimentados e bebidas alcoólicas. Uma alteração normalmente associada a língua geográfica é a língua fissurada e nesses casos a sintomatologia tende a ser mais evidente, graças a um excesso de crescimento de c. albicans nas fissuras. Devido a condição benigna e assintomática desta condição não é necessário tratamento. Nos casos onde haja sintomatologia dolorosa, a administração de anti-inflamatórios esteróides de uso tópico pode levar a uma melhoria do quadro. Embora tenha sido proposto, o tratamento com vitaminas do complexo B, não se mostrou eficaz quanto a sua atuação. No brasil estudos confiáveis dão conta que essa normalidade compromete 5% dos adultos jovens, não apresentando maior significado clínico (9) .

 

GLOSSITE ROMBÓIDE MEDIANA

Antigamente, considerava-se a glossite rombóide mediana como sendo uma anomalia congênita resultante da não fusão das metades laterais, antes que o tubérculo ímpar se interpusesse entre elas. Hoje acredita-se que sua etiologia esteja relacionada com uma infecção crônica causada pela c. albicans. Seu papel no aparecimento da lesão ainda não foi precisamente determinado. Segundo Gallina, 1968, não tem predileção por sexo ou raça, estando presente em aproximadamente 3,35% da população (3). É uma alteração que existe desde o nascimento, mas sua observação só pode ser feita com o crescimento da criança.

Clinicamente apresenta-se como uma zona avermelhada, despapilada, de forma rombóide ou oval, localizada na linha média do dorso lingual, imediatamente à frente das papilas valadas (1,3,4,5,6,8,10).

Frequentemente, forma uma massa composta por vários nódulos de limites irregulares, lisos e indolores. Deve ser considerado como diagnóstico diferencial o carcinoma espino celular de dorso de língua. Não existe tratamento para a glossite rombóide mediana a não ser a aplicação de anti-fúngicos, mesmo estes não tendo efetividade comprovada.

 

LÍNGUA FISSURADA

A língua fissurada é a alteração mais comum da língua e que segundo Gallina ( 1968 ) está presente em cerca de 5,92% da população (3). Não tem predileção por sexo e sua incidência parece aumentar com a idade. A irritação crônica e as deficiências vitamínicas são consideradas como possíveis fatores etiológicos, mas são necessários dados mais conclusivos. Aceita-se a etiologia da língua fissurada como sendo uma anomalia de desenvolvimento.

Manifesta-se clinicamente por um sulco central profundo no dorso, associado a numerosas fissuras secundárias que partem deste para as bordas da língua. O sulco central geralmente é mais profundo que os secundários que possuem simetria entre si.

Na maior parte dos casos é uma característica que passa sem ser notada pelo paciente, a não ser que inicia-se um processo de glossodinia e macroglossia com consequente edentação nas bordas ( 1,3,4,7,8,9,11.12).

É uma alteração usualmente indolor mas que pode apresentar sintomatologia graças ao acumulo de alimentos nos sulcos. Havendo a fermentação dos restos alimentares, instala-se um quadro de ardor e irritação, consequente à instalação do processo inflamatório.

Não existe tratamento especifico para a língua fissurada, mas deve se orientar o paciente a promover higienização através de escovação e bochechos.

LEUCOEDEMA

Até o momento ainda não foi estabelecida a causa ou etiologia do leucoedema, apesar de ser um achado clínico comum, em cerca de 70% da população negra (9). Parece ser uma anomalia de desenvolvimento, se bem que alguns autores relacionam essa anomalia com má higiene bucal e padrões anormais de mastigação. Leucoedema é usualmente um achado acidental. é assintomático , de distribuição simétrica e encontrado na mucosa jugal. apresenta-se como um área esbranquiçada ou leitosa . Nos casos mais acentuados pode-se notar uma alteração textural da superfície.

Um elemento clínico extremamente importante no diagnóstico do leucoedema é o fato de que ao se distender a mucosa jugal , a lesão desaparece, retornando quando deixamos de exercer a tração. O leucoedema não tem significado patológico, nem requer tratamento por ser inócuo.

Doenças como o nevo branco esponjoso, leucoplasia e líquen plano devem fazer parte das hipóteses diagnosticas tendo em vista sua semelhança com o leucoedema.

TOROS E EXOSTOSES

Os toros e exostoses são protuberâncias localizadas na superfície perióstica da maxila e mandíbula do osso adulto, cuja designação precisa depende da localização anatômica. embora, possa ocorrer na maxila e mandíbula em qualquer localização e idade, a maior prevalência é evidenciada na língua mediana do palato (20%), sendo que nessa região recebe o nome de toros palatinos (1,9). Esse tipo de toro predomina nas mulheres, normalmente antes da terceira década.

A segunda localização mais comum é na mandíbula (8%), onde há anormalidade se situa na face lingual da região de pré-molares e molares, sendo denominado nessa localização de toros mandibulares, afetando ambos os sexos igualmente (1,9).

Clinicamente os toros se caracterizam por massa óssea de crescimento lento e assintomático, revestido por mucosa normal. Os toros formam configurações variadas referidas como nodular, fusiforme, lobular ou achatada de tamanho variado (1,6,8,9,11). As exostoses são excrecências ósseas múltiplas que ocorrem menos comumente que os toros . São nódulos ósseos assintomáticos, que estão presentes ao longo da face vestibular do osso alveolar. essas alterações são notadas com maior frequência nas porções posteriores da maxila e mandíbula. Radiográficamente se apresentam como áreas radiopacas circunscritas ou difusas. A etiologia dessas anormalidades permanece obscura, embora tenham sido apresentadas evidencias sugerindo uma condição hereditária dos toros. Já nas exostoses, tem sido sugerido que esses crescimentos ósseos representam uma reação aumentada às forças oclusais dos dentes nas áreas envolvidas. Essas lesões são de pouco significado clinico . O tratamento dos toros e exostoses é desnecessário, a menos que seja exigido por questões protéticas ou tramas freqüentes à mucosa suprajacente.

 

PIGMENTAÇÃO RACIAL

Pigmentação racial , pigmentação melânica ou melanose racial são denominações de manchas de coloração escura localizada em área da mucosa bucal de indivíduos da raça negra (1,6,8,9,11). Apesar de serem extremamente comuns, alguns indivíduos não as apresentam . A maior prevalência da pigmentação racial é em áreas de gengiva inserida, seguida da mucosa jugal, palato e língua.

Em alguns casos, as lesões localizadas na mucosa jugal língua podem deixar dúvidas quanto ao diagnóstico e prognóstico, razão pela qual indica-se a realização de biópsia para exclusão de outras patologias.

Por se tratar de alteração benigna e sem maiores consequências , não requer tratamento. Nem tanto , quando a pigmentação for única, de bordas irregulares e ulcerada, devemos afastar a hipótese de melanoma.

GRÂNULOS DE FORDYCE

São glândulas sebáceas ectópicas, pois estes são anexos naturais da pele e não da mucosa bucal. Clinicamente aparecem como pequenas pápulas amareladas, pouco elevadas de diâmetro não superior à 2mm ( desde que não estejam coaptadas ). Usualmente encontram-se unidas formando conglomerados que localizam-se com mior frequência na mucosa jugal ( região posterior ) e na mucosa labial.

Há um aumento significativo da prevalência dos grânulos de fordyce com a idade. Não apresenta nenhum significado patológico e portanto não deve ser tratado. A importância do correto diagnóstico é o fato de poder-se orientar os pacientes quanto ao aspecto benigno desta alteração (1,6,8,9,11).

CONCLUSÕES

A análise e estudo das alterações bucais não patológicas, nos permitiu chegar a algumas conclusões a saber :
- O conhecimento profundo da anatomia bucal é de fundamental importância para a elaboração de um diagnóstico correto,
- O exame clinico detalhado e completo é fundamental na elaboração de hipótese diagnóstica confiável,
- O conhecimento de alterações comuns e inócuas da cavidade bucal é necessário para que o cirurgião-dentista tranquilize seus pacientes quanto ao seu prognóstico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. BHASKAR, S. N. PATOLOGIA BUCAL. 5.ED. SÃO PAULO, ARTES MÉDICAS, 1993.
  2. CERRI, A. ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO DA PREVALÊNCIA DE POSSÍVEIS DOENÇAS PROFISSIONAIS EM CIRURGIÕES-DENTISTAS DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. 63p. SÃO PAULO, 1991. TRABALHO DE DOUTORADO - FACULDADE DE ODONTOLOGIA DA USP.
  3. GALLINA, L. "ESTATÍSTICA SOBRE FREQUENCIA DE LÍNGUA ESCROTAL, LÍNGUA GEOGRÁFICA, LÍNGUA NEGRA PILOSA, GLOSSITE ROMBÓIDE MEDIANA, ANQUILOGLOSSIA EM 3274 ESTÔMATO-PACIENTES." RESSEGNA INTERNAZIONALE DI STOMATOLOGIA PRÁTICA, 19 : 261-67, 1968.
  4. JANUTZ, E.; MELNIK, J. L.; ADEBURG, E. A. MICROBIOLOGIA MÉDICA. RIO DE JANEIRO, GUANABARA KOOGAN, 1982.
  5. LEVENE, G.M. & CALNAN, C.D. ATLAS DE DERMATOLOGIA. RIO DE JANEIRO, ATHENEU, 1978
  6. REGEZI & SCIUBBA PATOLOGIA BUCAL - CORRELAÇÕES CLINICO PATOLÓGICAS GUANABARA KOOGAN, RIO DE JANEIRO, 1991
  7. ROBBINS, S.L.; COTRAN, R.S.; ZUMAR, Y. PATOLOGIA ESTRUTURAL E FUNCIONAL. 3 ed. RIO DE JANEIRO, GUANABARA KOOGAN, 1984.
  8. SONIS, S.T.; FAZIO, R.C.; FANC, L. MEDICINA ORAL. RIO DE JANEIRO, INTERAMERICANA, 1985
  9. TOMMASI, A. F. DIAGNÓSTICO EM PATOLOGIA BUCAL. 2.ed. SÃO PAULO, PANCAST, 1989
  10. WOLOSKER, M. & MURACO, B. CLÍNICA MÉDICA 3.ed. RIO DE JANEIRO, GUANABARA KOOGAN, 1984
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  12. ZWEMER, J.D. & WILLIANS, J.E. LOURNAL OF THE AMERICAN COLLEGE OF DENTISTS, 54 (4) : 07-13, 1987

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